Sexualidade masculina, compulsão e pornografia

A natureza frágil da sexualidade masculina nas circunstâncias sociais modernas está bem documentada nos estudos de casos terapêuticos contemporâneos. Heather Formani observa que “seja o que for a masculinidade, ela é muito prejudicial aos homens”, e o material de estudo de caso que ela discute apresenta uma justificativa ampla para essa observação [1]. Os homens tendem a ser sexualmente mais inquietos que as mulheres, isto porque eles separam a sua atividade sexual das outras atividades da vida, onde são capazes de encontrar uma orientação estável e integral [2].

O caráter compulsivo do movimento em direção à sexualidade episódica aumenta na medida em que as mulheres estabelecem, e rejeitam, a sua cumplicidade com a dependência emocional oculta dos homens. Quanto mais as mulheres pressionam para um a ética de um amor confluente, mais a dependência emocional masculina torna-se insustentável, mas para muitos homens o mais difícil pode ser lidar com a pobreza moral que isso implica. A sexualidade masculina está sujeita a ser dilacerada entre, por um lado, a dominância sexual agressiva, incluindo o uso da violência, e, por outro, constantes ansiedades em relação à potência (que provavelmente vêm à tona com mais frequência em relacionamentos de alguma duração, em que o desempenho sexual não pode ser isolado de vivências emocionais de diversos tipos).

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A ansiedade masculina no que diz respeito à sexualidade foi muito encoberta enquanto as várias condições sociais que a protegiam estavam no devido lugar. Se a capacidade e a necessidade das mulheres de expressar a sexualidade foram mantidas ocultas até pleno século XX, o mesmo aconteceu com o concomitante trauma dos homens. A análise de Lesley Hall das cartas escritas por homens a Marie Stopes [3] ilustra esta veia de inquietude e desespero sexual – que está tão distante da imagem do “devasso displicente” ou da “sexualidade impetuosa e desenfreada” quanto se pode imaginar [4]. Impotência, poluções noturnas, ejaculação precoce, preocupações com o tamanho e o desempenho do pênis – estas e outras ansiedades aparecem repetidamente nas cartas. Muitos homens que contataram Stopes tiveram o cuidado de destacar que não eram fracos, mas “um homem grande e forte”, “acima da média em termos de condição física”, “bem-constituído, atlético, fisicamente muito forte” e assim por diante.

A ansiedade baseada na falta de conhecimento sobre sexo é um tema persistente, assim como os sentimentos crônicos de inferioridade e perturbação pessoal. A incapacidade de gerar resposta sexual no parceiro é uma queixa comum, mas também é comum a falta de prazer por parte do homem. Como expressou um indivíduo: “Nenhum de nós jamais sente aquela satisfação no abraço mais íntimo, que o instinto e a razão me dizem que deveria ocorrer.” [5] A maior parte das preocupações dos correspondentes de Stopes estavam focadas no fracasso sexual ou em inquietações sobre a normalidade; os fracassos da “virilidade” eram antes vivenciados como ameaças a um relacionamento valorizado do que como problemas expressados teoricamente.

Embora eu não tenha a pretensão de discutir pormenorizadamente essas questões, a análise precedente ajuda a dar sentido a algumas características da pornografia em massa e a importantes aspectos da violência sexual masculina. A pornografia podia ser encarada como a transformação do sexo em mercadoria, mas esta seria uma visão muito parcial. A atual explosão de material pornográfico, grande parte dele dirigido principalmente aos homens, e em sua maioria exclusivamente consumido por eles, assemelha-se muito na forma à prevalente concentração no sexo de baixa emoção e alta intensidade. A pornografia heterossexual exibe uma preocupação obsessiva com cenas e posições padronizadas em que a cumplicidade das mulheres, substancialmente dissolvida no mundo atual, é reiterada de modo explícito [6]. As imagens das mulheres em revistas pornográficas leves – generalizadas por sua inserção em propagandas ortodoxas, histórias não sexuais e outros itens – são objetos de desejo, mas nunca de amor. Elas excitam e estimulam e, é claro, são quintessencialmente episódicas, não requerem qualquer compromisso.

A cumplicidade feminina é retratada na maneira estilizada com que as mulheres são usualmente representadas. A “respeitabilidade” da pornografia leve é uma parte importante desse apelo, subentendendo que as mulheres são os objetos, mas não os sujeitos, do desejo sexual. No conteúdo visual das revistas pornográficas, a sexualidade feminina é neutralizada e a ameaça da intimidade, dissolvida. O olhar das mulheres está normalmente dirigido ao leitor: esta é na verdade uma das convenções mais estritas observadas na apresentação da imagem. O homem que se fixa neste olhar deve por definição dominá-lo; aqui, o pênis se transformaria em falo, no poder imperial que os homens seriam capazes de exercer sobre as mulheres. Algumas revistas pornográficas mantém colunas em que os problemas sexuais dos leitores são discutidos e respondidos. Mas a grande maioria das cartas enviadas a esses periódicos são totalmente diferentes daquelas coletadas por Stopes. Ao contrário das cartas orientadas para os problemas, elas estão preocupadas em documentar proezas; mais uma vez, relatam episódios sexuais de forma indiscreta.

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Nesses episódios, um tema é constante. É o prazer sexual; não de fato o masculino, mas o feminino, e em geral apresentado de modo muito peculiar. São histórias de mulheres em êxtase na sua sexualidade, mas sempre sob o domínio do falo. As mulheres choramingam, arquejam e tremem, mas os homens ficam silenciosos, orquestrando os acontecimentos. Seja o que for que a própria experiência masculina ofereça, as expressões de prazer feminino são detalhadas com uma atenção excessiva. O arrebatamento da mulher jamais é posto em dúvida; mas o ponto principal das histórias não é compreender ou empatizar com as fontes e a natureza do prazer sexual feminino, mas submetê-lo e isolá-lo [7]. Os acontecimentos são descritos pelas reações das mulheres, mas de modo a tornar o desejo feminino tão episódico quanto o masculino. Por isso, os homens procuram saber o que as mulheres querem, e como enfrentar o desejo feminino, mas em seus próprios termos.

A pornografia torna-se facilmente viciosa devido ao seu caráter substitutivo. A cumplicidade das mulheres é garantida, mas a representação pornográfica não pode “por em xeque” os elementos contraditórios da sexualidade masculina. O prazer sexual que as mulheres demonstram na revista ou no ecrã vem com uma etiqueta de preço anexada – para que a criatura que pode demonstrar tal delírio também possa ser vista como impondo exigências que têm de ser cumpridas. O fracasso não é abertamente exibido, mas se esconde como a subentendida presunção do desejo: raiva, culpa e medo das mulheres são inequivocamente misturados a devoção que essas histórias também revelam.

Actor Chris Evans for Flaunt Magazine

Os efeitos normalizadores da pornografia leve provavelmente explicam mais o seu apelo de massa do que o fato de o material pornográfico mais explícito não estar tão prontamente disponível comercialmente. A pornografia pesada, pelo menos em algumas de suas muitas versões, poderia ser mais ameaçadora, ainda que a sua explicitação possa parecer alimentar mais plenamente a “busca” masculina. Neste momento, o poder já não está mais limitado pelo “consentimento do dominado” – o olhar cúmplice da mulher -, mas aparece muito mais aberto, direto e violentamente imposto. Para alguns, é claro, é precisamente esta sua atração. Mas a pornografia pesada também opera no limite externo da sexualidade fálica, revelando as ameaçadoras liberdades da sexualidade plástica que estão do outro lado.

A emergência do que eu chamo de sexualidade plástica é crucial para a emancipação implícita no relacionamento puro, assim como para a reivindicação da mulher ao prazer sexual. A sexualidade plástica é a sexualidade descentralizada, liberta das necessidades de reprodução. Tem as suas origens na tendência, iniciada no final do século XVIII, à limitação rigorosa da dimensão da família; mas torna-se mais tarde mais desenvolvida como resultado da difusão da contracepção moderna e das novas tecnologias reprodutivas. A sexualidade plástica pode ser caracterizada como um traço da personalidade e, desse modo, está intrinsecamente vinculada ao eu. Ao mesmo tempo, em princípio, liberta a sexualidade da regra do falo, da importância jactanciosa da experiência sexual masculina [8].

Violência Sexual Masculina

A força e a violência fazem parte de todos os tipos de dominação. No domínio ortodoxo da política, surge a questão de até que ponto o poder é hegemônico, de tal forma que só se recorre à violência desmedida quando a ordem legítima entra em colapso, ou, alternativamente, até que ponto a violência expressa a verdadeira natureza do Estado. Um debate similar surge de repente na literatura preocupada com a pornografia e com a violência sexual. Alguns têm argumentado que o incremento da pornografia pesada, particularmente onde a violência está diretamente exposta, representa a verdade interior da sexualidade masculina como um todo [9]. Também sugere-se que a violência contra as mulheres, especialmente o estupro, é o principal esteio do controle dos homens sobre elas [10]. O estupro mostra a realidade da regra do falo.

Parece claro que há uma continuidade, não uma interrupção nítida, entre a violência masculina em relação às mulheres e outras formas de intimidação e perseguição. O estupro; o espancamento e até o assassinato de mulheres frequentemente contêm os mesmos elementos básicos que os encontros heterossexuais não violentos, quais sejam, a dominação e a conquista do objeto sexual [11]. Sendo assim, será que a pornografia é a teoria e o estupro a prática, como alguns têm declarado? Na resposta a esta pergunta, é importante determinar se a violência sexual faz parte da muito antiga opressão masculina sobre as mulheres ou se está relacionada a transformações históricas mais gerais no interior da intimidade.

Como indica a discussão precedente da sexualidade masculina, o impulso para subordinar e humilhar as mulheres provavelmente é um aspecto genérico da formação psicológica masculina. Mas é passível de argumentação (embora certamente tal visão seja polêmica) que o controle das mulheres nas culturas pré-modernas não depende primariamente da prática da violência contra elas. Ele foi garantido acima de tudo pelos “direitos de propriedade” sobre as mulheres que os homens em particular detinham, associados ao princípio das esferas separadas. As mulheres eram frequentemente expostas à violência masculina, em particular no ambiente doméstico; entretanto, era igualmente importante que elas fossem protegidas das arenas públicas, onde os homens submetiam-se uns aos outros à violência. Foi por isso que, no desenvolvimento pré-moderno da Europa, o estupro floresceu “sobretudo às margens; nas fronteiras, nas colônias, nos Estados em guerra e nos estados da natureza; entre os exércitos saqueadores e invasores” [12].

A lista é enorme, e por si só bastante aterrorizante. Mas a violência nessas circunstâncias raramente era dirigida em especial às mulheres; nestas “margens”, a violência em geral era pronunciada e o estupro era uma atividade entre outras formas de brutalidade e morticínio, envolvendo primariamente os homens, como destruidores e como destruídos. Característico de tais situações marginais era o fato de as mulheres não estarem tão isoladas dos domínios masculinos, como em geral acontecia; e os homens não podiam garantir a sua segurança.

Nas sociedades modernas, as coisas são muito diferentes. As mulheres vivem e trabalham em ambientes públicos anônimos com muito mais frequência do que antes, e as divisões “isoladas e desiguais” que separavam os sexos foram substancialmente desfeitas. Faz mais sentido hoje em dia do que no passado a suposição de que a violência sexual masculina tornou-se a base do controle sexual. Em outras palavras, atualmente, grande parte da violência sexual masculina provém mais da insegurança e dos desajustamentos do que de uma continuação ininterrupta do domínio patriarcal. A violência é uma reação destrutiva ao declínio da cumplicidade feminina.

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Exceto em situações de guerra, hoje em dia os homens talvez sejam mais violentos com relação às mulheres do que o são entre si. Há muitos tipos de violência sexual masculina contra as mulheres, mas pelo menos alguns deles têm a consequência anteriormente observada: eles mantêm a sexualidade episódica. Este poderia ser o traço principal – embora certamente não o único – que liga tal violência à pornografia. Se for este o caso, pode-se concluir que a literatura e a filmografia pornográficas, ou boa porção delas, são parte do sistema hegemônico de dominação, com a violência sexual atuando mais como apoio secundário do que como um exemplo do poder fálico.

Evidentemente, seria absurdo afirmar que há uma norma unitária de masculinidade, e seria falso supor que todos os homens estão relutantes em incorporar a mudança. Além disso, a violência sexual não está confinada às atividades dos homens. As mulheres são, com muita frequência, fisicamente violentas em relação aos homens também em ambientes domésticos; a violência não parece ser uma característica rara nos relacionamentos lésbicos, pelo menos em alguns contextos. Estudos de violência sexual feminina descrevem casos de estupro, espancamento e ataques com revólveres, facas e outras armas letais em relacionamentos lésbicos [13]. A maior parte dos homens que escrevia para Marie Stopes estava preocupada com suas parceiras mulheres. Muitos homens que regularmente visitam prostitutas desejam assumir o papel passivo, não ativo, quer isso envolva ou não práticas masoquistas reais. Alguns homens gays encontram seu maior prazer sendo submissos, mas muitos são também capazes de trocar papéis. Têm sido mais bem-sucedidos que os heterossexuais no isolamento do poder diferencial e em seu confinamento à área da sexualidade em si. Como expressou um homem gay: “Há fantasias que nos capturam e fantasias que nos libertam… As fantasias sexuais, quando conscientemente empregadas, podem criar uma contraordem, uma espécie de subversão, e um pequeno espaço pelo qual podemos escapar, especialmente quando são embaralhadas todas aquelas distinções nítidas e opressoras entre ativo e passivo, masculino e feminino, dominante e submisso” [14].

Trecho adaptado de: GIDDENS, Anthony. “Distúrbios pessoais, problemas sexuais”. In: A transformação da Intimidade. São Paulo: Editora Universidade Estadual Paulista, 1993.


Sobre o autor

Anthony Giddens é professor emérito de Sociologia da London School of Economics and Political Sciences. Publicou, entre outros, os seguintes trabalhos: The Constitution of Society (1984), The Nation-State and Violence (1989) e As consequências da modernidade (1990), este último publicado pela Editora Unesp em 1991.


Notas

[1] FORMANI, HeatherMen, the Darker Continent. London: Mandarin, 1991 (p. 11).

[2] ROSS, MichelThe Married Homossexual Man. London: Routledge, 1983.

[3] Marie Charlotte Carmichael Stopes, ativista dos direitos das mulheres e pioneira no campo pesquisa acerca do controle de natalidade.

[4] HALL, Lesley AHidden Anxieties, Male Sexuality, 1900-1950. Cambridge: Polity, 1991.

[5] Ibid., p. 121.

[6] MOYE, Andy. “Pornography”. In: METCALF, Andy & HUMPHRIES, MartinThe Sexuality of Men. London: Pluto, 1985.

[7] Ibid. pp. 68-69.

[8] Este parágrafo foi anexado à transcrição publicada neste blog para fins de exposição. Originalmente ele pode ser encontrado e verificado em: Giddens, AnthonyA transformação da Intimidade. São Paulo: Editora Universidade Estadual Paulista, 1993. (p. 10).

[9] DWORKIN, AndreaPornography: Men Possessing Women. London: Women’s Press, 1981.

[10] GRIFFIN, Susan. “Rape, the all-American crime”. In: Ramparts, v. 10, 1973; BROWNMILLER, SusanAgainst Our Will. London: Penguin, 1977.

[11] KELLY, LizSurviving Sexual Violence. Cambridge: Polity, 1988.

[12] PORTER, Roy. “Does rape have a historical meaning?”. In: TOMASELLI, Sylvanna & PORTER, Roy. Rape. Oxford: Blackwell, 1986. (p. 235)

[13] LOBEL, Karey. Naming the Violence. Seattle: Seal, 1986.

[14] Citado em SEGAL, LynneSlow Motion. London: Virago, 1990. (p. 262)

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