Foucault, o intempestivo

No Brasil e na França, novas edições celebram vida e obra do filósofo francês Michel Foucault (1926-1984): romance de Mathieu Lindon e ensaio de Paul Veyne fazem um retrato afetivo do amigo; ensaios refletem sobre seu pensamento independente e avesso a ideologias, que ainda mobiliza paixões em discípulos e detratores.

O APARTAMENTO no qual Michel Foucault viveu seus últimos anos em Paris ficava no oitavo andar de um prédio da rue de Vaugirard. Na vasta e luminosa sala, o filósofo e seus amigos elegeram um lugar para tomarem LSD: o cantinho Mahler, próximo da vitrola e com sofás confortáveis. As viagens de ácido costumavam ser embaladas pela música do compositor, um dos preferidos do anfitrião, e pela projeção de filmes, de preferência, comédias dos irmãos Marx.
“LSD, cocaína, ópio, ele provou de tudo, menos, claro, heroína: mas não acabará cedendo, em sua vertigem atual?”, escreveu, em 1975, o jornalista Claude Mauriac, amigo de Foucault, em seu titânico diário (Le Temps Immobile, Grasset, em dez vols.). Na varanda de sua casa, o filósofo cultivava pés de maconha, conforme relata Didier Eribon na biografia Michel Foucault. De lá, avista-se o apartamento do escritor Hervé Guibert, no prédio ao lado.

Guibert era 29 anos mais novo que Foucault, mas estabeleceu com ele, a partir de 1977, uma forte amizade, que seguiu até a morte do filósofo, provocada pela Aids, em 1984, aos 57. A mesma doença atingiu o escritor, que morreu pouco tempo depois, em 1991, aos 36.

Um ano antes de seu falecimento, Guibert publicou o romance autobiográfico O Amigo Que Não Me Salvou a Vida, que tem como protagonista o professor homossexual Muzil, adepto de práticas sadomasoquistas – claramente inspirado em Foucault. Conta-se que, após a morte do filósofo, foram encontrados em sua casa vários instrumentos para as práticas S/M.

FIGURA LITERÁRIA

Agora, Foucault faz novo retorno como figura literária no livro Ce Qu’Aimer Veut Dire (O Que Amar Quer Dizer), de Mathieu Lindon, lançado há pouco na França [ed. POL, 311 págs., 18,50 euros]. Ele é o personagem central desta obra autobiográfica, narrada com delicadeza e generosidade.
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Mathieu Lindon é filho do lendário editor Jerôme Lindon (1925-2001), da Minuit, casa fundada em 1941 e responsável pela publicação de gigantes da literatura de vanguarda, como Samuel Beckett e Alain Robbe-Grillet, além de Georges Bataille, Gilles Deleuze e outros nomes cruciais da filosofia no século 20. Como Hervé Guibert, Mathieu nasceu em 1955.
Ele tinha 23 anos, trabalhava como jornalista e ainda não publicara nenhum livro quando se aproximou, em 1978, de Foucault, então o mais celebrado e polêmico pensador francês. Foi levado ao apartamento da rue de Vaugirard por amigos da mesma idade, que formavam em torno do autor de Arqueologia do Saber, já cinquentão, um círculo de relações juvenis. O convívio era dedicado mais às conversas amenas sobre arte, aos passeios, aos jantares e às drogas do que aos densos debates filosóficos.

TRIO

Foi Foucault quem insistiu na aproximação de Mathieu e Guibert. Juntos, acabaram formando um trio fidelíssimo de amigos. Quando viajava de férias ou para seus cursos no exterior, o filósofo entregava as chaves do apartamento para os jovens amigos, que faziam do local o seu ponto de encontro, de festas e de sexo. Para Mathieu, viver no apartamento era como “habitar a própria juventude”. E, para Foucault, os jovens e o LSD significavam a oportunidade de poder “pensar diferente”, nas palavras do escritor.
As situações vividas no apartamento ocupam boa parte da narrativa – uma festinha com um dançarino japonês nu, um jantar para William Burroughs, os encontros amorosos e, sobretudo, as viagens de ácido.

Numa das mais belas passagens do livro, ao tratar da morte do filósofo, Mathieu diz: “Eu fui o garoto do apartamento, aquele que, como num ‘vaudeville’, chega quando o outro parte, e parte quando o outro chega. Mas quando o outro partiu para sempre, que o ‘vaudeville’ deu errado, não havia mais como voltar. Nossos destinos estavam ligados. E quando eles se desligaram, eles permaneciam ligados. Eu persistia em querer ocupar ao menos um espaço imaginário, uma rue de Vaugirard que se tornara então um mundo tão desaparecido quanto Atlântida”.

O livro se desenvolve como um discreto romance de formação e é também um balanço da relação de Mathieu com a forte figura de seu pai, cuja notoriedade e influência pesava sobre sua vida. “Meu pai era um fato, Michel havia sido um acaso”. Em Foucault, ele encontra não um pai substituto, mas um amigo e um interlocutor que o conduzirá da adolescência à maturidade, das indecisões juvenis à carreira de escritor.
“Ele me educou”, escreve. E completa: “É o amigo que me salvou a vida”. Mathieu traça do filósofo um retrato amoroso, luminoso e alegre – nos antípodas do dilacerado protagonista do romance de Guibert, em O Amigo Que Não Me Salvou a Vida.

HOMENAGENS

O lançamento de Ce Qu’Aimer Veut Dire coincide com as homenagens que estão sendo prestadas a Foucault, com uma série de livros sobre ele chegando às livrarias da França e do Brasil.
Seus raros escritos e entrevistas a respeito de filmes foram reunidos no livro Foucault Va Au Cinéma (Foucault Vai ao Cinema) [org. Patrice Maniglier e Dork Zabunyan, ed. Bayard, 168 págs., € 21]. O filósofo não tinha o cinema em alta conta – preferia a pintura e a música. Dizia se entediar com Bergman e se irritar com Godard, que por sua vez classificou Foucault como um dos “novos intelectuais inúteis”.

Convocado, porém, pelos Cahiers du Cinéma e outras publicações entre meados dos anos 1970 e o início dos 1980, fez significativas intervenções no debate cinematográfico, analisando a representação da história e das classes populares nos filmes. Em 1976, um de seus livros ganhou adaptação para as telas, pelas mãos do diretor francês René Allio: Eu, Pierre Rivière, Que Degolei Minha Mãe, Minha Irmã e Meu Irmão.

Na França, foram lançados ainda uma edição revista da biografia Michel Foucault, de Didier Eribon [Champs Flammarion, 646 págs., € 11], que teve edição brasileira pela Companhia das Letras, em 1990, e novo volume dos cursos no Collège de France. O filósofo também foi destacado no Cahier Foucault [416 págs., € 39], das prestigiosas Editions de l’Herne, com mais de 50 ensaios de pesquisadores, entre eles Judith Revel, Arlette Farge, Antonio Negri, Georges Didi-Huberman, Daniel Arasse e Bernd Stiegler. A edição traz inéditos e facsímiles de textos datilografados ou manuscritos, como as anotações para a conferência “O Negro e a Superfície”, sobre a pintura de Manet.
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CONTRADIÇÕES

É natural que, em comemorações assim, predomine um tom encomiástico e de consagração. Mas sempre aparece alguém para atrapalhar a festa. E, na França, foi o caso de José Luis Moreno Pestaña, com Foucault, la Gauche et la Politique (Foucault, a Esquerda e a Política) [Textuel, 144 págs., € 9,90]. Publicado em fevereiro, o pequeno livro pretende expor as contradições das posições políticas de Foucault. Curiosamente, neste caso, a investida não vem da ala conservadora, que costuma ter no filósofo um alvo de estimação. Professor da Universidade de Cádiz (Espanha) e autor de outros livros sobre o pensador francês, Pestaña é um discípulo de Pierre Bourdieu e um intelectual próximo da esquerda. No livro ele reclama, justamente, da “inconstância” política de Foucault e da impossibilidade de definir, a partir do seu trabalho, uma política de esquerda.
O autor resume assim a trajetória do filósofo: comunista na juventude, flerta com o gaullismo no início de sua carreira acadêmica, adere à extrema esquerda no pós-Maio de 68 e, por fim, sucumbe à visão antitotalitária dos novos filósofos (como André Glucksmann, do qual era amigo). Pestaña chega a dizer, com exagero, que Foucault se deixou seduzir no final da vida por um “neoliberalismo culturalmente radical”.
A descrição há de espantar os críticos de Foucault situados à direita e que costumam ver nele um esquerdista radical. Mas não constitui novidade o filósofo ser objeto de ataques da esquerda e dos marxistas.

MARX

Didier Eribon recorda, na biografia Michel Foucault, que à época do seu lançamento, em 1966, As Palavras e as Coisas foi com frequência considerado “de direita”. O próprio Jean-Paul Sartre enxergou na obra uma afronta radical a Marx: “O marxismo é o alvo [do livro de Foucault]. Trata-se de constituir uma ideologia nova, a última barreira que a burguesia ainda possa levantar contra Marx”, escreveu o autor de “O Ser e o Nada”.
As Palavras e as Coisas, livro que revolucionou as ciências humanas com sua proclamação da “morte do homem”, será peça central na virulenta polêmica então travada entre marxistas e estruturalistas. “O livro de Foucault é excomungado nos círculos do Partido”, escreve Eribon. “Não lhe perdoam ter afirmado que ‘no pensamento do século 19 o marxismo é como um peixe na água, quer dizer, em qualquer outro lugar ele para de respirar’.”

Na mesma época, meados dos anos 1960, o filósofo entretém agradáveis relações com o governo De Gaulle. Em 1965, chega a participar de um projeto de reforma universitária proposto pelo premiê gaullista Georges Pompidou. Não há consenso sobre sua simpatia ao gaullismo, mas é certo que Foucault – que pertencera na juventude ao PCF, como boa parte de sua geração – se tornaria, depois de uma experiência desagradável em Varsóvia, onde fora dar aulas, “violentamente anticomunista”, nas palavras de Eribon.

O biógrafo também recorda como foi recebida com percalços a nomeação de Foucault para ocupar a coordenação do curso de filosofia da recém-criada Universidade de Vincennes, que se tornaria uma linha de frente da esquerda universitária no pós-Maio de 68. “Consideram-no [a Foucault] pouco engajado, pecado supremo aos olhos dos ativistas de todas as facções que afluem para erguer [em Vincennes] o que se tornará o ‘bastião vermelho’ de após 1968. Dizem que ele é ‘gaullista’, criticam- no muito por não ter ‘feito nada’ em Maio de 1968”.

IRÃ

A complexidade – para não dizer a independência – das suas posições políticas se acentua nos anos 1970, quando ele se aproxima da extrema esquerda, milita em diversas causas, ajuda a fundar o jornal Libération, então radicalmente progressista, e engrossa com alarde o coro dos que defendem a revolução islâmica do Irã, em 1979, contra a monarquia do xá Reza Pahlevi.
Foi seu engajamento mais controverso e que lhe causou sério desgosto, em decorrência da subsequente ditadura religiosa que emergiu no país, sob as barbas do aiatólá Khomeini. O episódio é tema do recém-lançado Foucault e a Revolução Iraniana, de Janet Afary e Kevin B. Anderson [É Realizações, trad. Fabio Monteiro de Barros Faria, 480 págs. R$ 89], ataque audacioso às posições do filósofo no episódio. Embora traga abundantes e relevantes explicações sobre a situação religiosa e política iranianas no período, o livro simplifica brutalmente o pensamento foucaltiano. Seu principal mérito é reunir as reportagens feitas pelo filósofo no Irã, à época, por encomenda do jornal italiano Corriere della Sera.
Foucault foi seduzido pelos protestos populares contra a tirania de Reza Pahlevi e pela confluência de política e religiosidade em um movimento que se imaginava de libertação. Chegou a se reunir com Khomeini na França, onde o líder se encontrava exilado. Porém, segundo o historiador Paul Veyne, o filósofo não ficou com uma impressão muito favorável do aiatolá, sobre o qual teria dito: “Ele me falou de seu programa de governo; se tomasse o poder, seria de uma idiotice de fazer chorar”.

Não foi menos conturbada a relação de Foucault com os socialistas, quando estes chegaram ao poder na França em maio de 1981, com a vitória de François Mitterrand. Veyne conta que o filósofo teria ficado, na verdade, “colérico” com a chegada dos socialistas ao poder. “Suponho, sem estar certo, que ele preferia [Michel] Rocard [socialista moderado] a Mitterrand. Na ocasião de sua morte [em 1984], Foucault estava preparando uma crítica do socialismo francês (havia uma pilha de livros sobre a questão em sua cabeceira); o partido socialista, segundo ele, nunca tinha tido política propriamente dita.”
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AMIGO

As revelações de Veyne fazem parte de um livro extraordinário, Foucault – Seu Pensamento, Sua Pessoa, publicado pelo historiador em 2008 e que ganha agora edição no Brasil [trad. Marcelo Jacques de Morais, Civilização Brasileira, 256 págs., R$ 39,90]. Como ocorre com Mathieu Lindon, a obra de Veyne é o testemunho de um amigo.
Especialista na Antiguidade greco-romana, o historiador foi aluno de Foucault na juventude e manteve com ele uma amizade e uma colaboração de 30 anos. Era também um frequentador do apartamento da rue de Vaugirard, mas para os debates filosóficos e políticos que ali eram travados. Heterossexual, Veyne conta que foi eleito por Foucault como o “homossexual honorário” da turma.
O livro, entretanto, é feito menos de revelações pessoais do que de um trabalho de apresentação, esclarecimento e defesa das ideias do filósofo contra seus inúmeros detratores, de esquerda e direita – entre eles o brasileiro José Guilherme Merquior, autor de Michel Foucault ou o Niilismo de Cátedra, a mais severa, complexa e respeitada confrontação com as ideias foulcaltianas, livro fora de catálogo no país, mas que pode ser adquirido na edição em inglês Foucault [Fontana Press, US$ 13].
Em contraponto aos que acusam Foucault de niilista, Veyne o define como um pensador cético, que desconfia dos conceitos universais, mas não das singularidades empíricas nem da realidade dos fatos. “As singularidades empíricas lhe pareciam a bom direito dignas de fé. Elas são a oportunidade do historiador, do jornalista ou do investigador: seu questionamento incide precisamente sobre o desenrolar singular de um acontecimento”, escreve o historiador.

Foucault tampouco seria um relativista, como alguns costumam tachá-lo, mas sim um “perspectivista”, na linhagem nietzschiana, empenhado em libertar o pensamento de sua sujeição a estas quatro ilusões: “a adequação, o universal, o racional e o transcendental”. Segundo Veyne, “Foucault sugeriu imprudentemente que em nossa época a humanidade estava começando a aprender que podia viver sem mitos, sem religião e sem filosofia, sem verdades gerais sobre si mesma. Era essa a revolução nietzschiana, da qual ele estimava ser um continuador.”

DECISIONISMO INDIVIDUAL

O historiador descreve Foucault como um sujeito avesso às ideologias, inclusive à marxista, adepto de um “decisionismo individual”, que lhe “dispensava de fundamentar suas ações militantes na verdade, na doutrina”. Ele diz: “O foucaltianismo é uma crítica da atualidade que se esquiva de ditar prescrições para a ação, mas fornece-lhe conhecimentos.” Misto de esgrimista e samurai, na definição do historiador, o filósofo também teria sido um “astuto”, que preferiu ficar próximo dos militantes de esquerda sobretudo porque entre eles “podia encontrar companheiros para suas lutas pontuais”.
Diz Veyne: “Esse pretenso esquerdista, que não era nem freudiano, nem marxista, nem socialista, nem progressista, nem terceiro-mundista, nem heideggeriano, que não lia nem Bourdieu, nem Le Figaro, que não era nem ‘nietzschiano de esquerda’, nem, aliás, de direita, foi o inatual, o intempestivo de sua época, para retomar com justiça um termo nietzschiano”. Declaração polêmica, que deve incomodar – como outras de Veyne – foulcaultianos e antifoulcaultianos radicais, mas que ajuda a explicar por que é tão difícil obter a paz do consenso em relação a este filósofo que buscou construir seu pensamento além do bem e do mal.


Publicado em 22 de maio de 2011 no Jornal Folha de São Paulo.
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrissima/il2205201104.htm última visualização no dia 10 de janeiro de 2014]

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