Reflexões Queer sobre a revista Júnior

Depois de um ano e meio de pesquisa sob minha orientação, Flávia Azevedo defendeu sua monografia para a conclusão do Curso de graduação em Ciências Sociais da UFSCar. Uma Leitura Queer da Revista Júnior foca no repertório temático da publicação e suas seções mais recorrentes para identificar e desconstruir o “universo gay” que a revista busca retratar e, de alguma forma, ajuda também a criar. Afinal, é nesta dinâmica que muitos leitores se reconhecem ou buscam modelos para desenvolverem seus estilos de vida e até mesmo se compreenderem. De forma sintética, na visão de Azevedo, a revista é marcada por ambiguidades como retratar um universo gay de consumo acessível a poucos privilegiados do circuito Rio-São Paulo tendo que lidar com as tensões da realidade brasileira. O resultado, até ao menos o número doze, foi o da idealização ou criação de modelos de estilo de vida mantidos “separados” da realidade pela seção Dossiê, na qual matérias mais “sérias” terminam “contidas”. É no Dossiê que aparecem os Outros de nossa sociedade (sobretudo os pobres) e também os temores (ou pavores) dos gays-ideais (a velhice, a “feiura”, etc).

Assim, com a realidade represada no Dossiê, a maior parte da revista pode se dedicar a construir seu “universo perfeito” para os aprendizes de Barbie, diria eu, a quem se dirige predominamente a Júnior. A arguição de Jorge Leite Jr. focou no caráter “juvenil” da publicação, a qual não se dirige exatamente a adolescentes, a um equivalente gay da revista Capricho, mas a homens gays que adotam modelos corporais e comportamentais aprisionados em um culto da juventude-imaturidade. Mais do que uma crítica ao veículo em si, a reflexão que sua fala suscitou entre nós foi a de como esta característica realmente marca a vida de homens que – muito mais frequentemente do que se imagina – adotam uma vida gay acima dos 25 anos. Sem modelos ou scripts para a vida adulta que possam competir pelos ditados pelo mercado, estes homens vivenciam a experiência de ter que viver a partir de ideais de consumo que marcam não apenas a compra de objetos, mas, sobretudo pressões sobre aonde ir, com quem sair, a quem desejar e – sobretudo – como se tornar socialmente aceito.Raul and Haydem twins

Nestas condições, ao adotarem uma vida “gay” vivem um corte biográfico em que a adolescência anterior pouco parece prover para a experiência presente. Daí sua abertura a referências “fora de época” e a uma problemática afetivo-sexual que se mistura, inevitavelmente, com a busca por formas de encontrar uma nova inserção social na sempre ameaçada condição da homossexualidade. Devido ao ainda recorrente temor do estigma do efeminamento passam a viver em função de uma dedicação corporal e subjetiva para incorporar meios e, até mesmo, corporificar aquilo que vejo como a “versão eugênica” falha do heterossexual: a Barbie.

Quem seria a Barbie? O primeiro fato a ser notado é que uma Barbie jamais se reconhece como tal, pois vê em si o ideal do mundo gay. Barbie é o termo usado ironicamente por aqueles que denunciam neste “homem de plástico” que a sua hipérbole de corpo musculoso o trai colocando à prova sua virilidade. Afinal, só mesmo alguém altamente inseguro para tentar ser mais forte e másculo do que qualquer homem heterossexual, seu ideal irrealizado, a “falha” de sua vida. Este último quesito merece atenção. A ênfase nos corpos musculosos e em uma atitude “máscula” como porta de entrada para a aceitação social resulta no paradoxo dos ensaios sensuais em que rapazes aparecem mais como ideais para si mesmo, do corpo a ser alcançado, do que para serem desejados.

Na revista, como na cultura gay hegemônica no Brasil, o corpo ideal é a condição básica da existência. Isto facilita a venda de produtos, academias, tudo em busca de um corpo-aprovação, prova de pertencimento de classe, acesso a tecnologias, alimentação, orientação profissional, daí o seu caráter quase “eugênico” a que me referi mais acima. Mas este corpo pode ser amado? O desejo está tão atrelado à norma, ao perfil musculoso, definido por longas sessões de musculação, que o desejo pelo outro se (con)funde com o desejo pelo corpo do outro, o consumo do outro para a aceitação social. Assim, não é de se estranhar que tal dinâmica forme “casais-gêmeos” ou, ao menos, pautados mais pelo grau de adequação do “par” ao padrão gay que, afinal, é pura reverência à respeitabilidade e o privilégio perdidos da heterossexualidade.

Em meio a estes aprisionamentos corporais e subjetivos, compreendemos o culto de uma juventude idealizada como estado “natural”, condição mesma de uma certa homossexualidade em nossa cultura. Nas matérias sobre relacionamentos, por exemplo, encontramos uma intitulada “Era vidro e se quebrou”, mais uma referência infantil(izada) que corrobora que é a armadilha da “imaturidade”, de poderosos ideais e fantasias sobre si mesmo, que preenche as páginas e marca a vida dos leitores da principal revista do segmento editorial gay brasileiro.


Sobre o autor

Richard Miskolci é Doutor em Sociologia pela USP, é Professor Associado de Sociologia da UFSCar, Bolsista Produtividade em Pesquisa do CNPq e Pesquisador Colaborador do Núcleo de Estudos de Gênero Pagu da UNICAMP. Coordena o QuereresNúcleo de Pesquisa em Diferenças, Gênero e Sexualidade e orienta estudos sobre os usos contemporâneos das mídias digitais na sociedade brasileira.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s