Por uma pornografia livre

O lixo. Dejetos, excessos, defeitos, exceções com os quais não sabemos o que fazer. Enchemos as ruas, as valas, os depósitos de lixo. O lixo é o que sobra – o que não tem cabimento nas nossas formas de vida. Sustentabilidade pode ser medida assim: quanto fica de fora! Uma maneira de distribuir que embala com plástico, uma maneira de produzir que dá a luz à mais do que consegue escoar. Uma maneira de consumir que se baseia em exibir sempre o novo inelutavelmente deixa sobras de fora. O lixo é o que não conseguimos assimilar nas nossas maneiras de produzir, distribuir e consumir. O lixo é o que sobra de um processo – como uma máquina com vazamento, como uma economia que funciona produzindo excessos, excedentes, externalidades.

Quando falamos em reciclar, podemos estar falando somente em incluir o que fica sobrando na velha engrenagem. Podemos apenas tentar que sobre menos. Mas ver produção no lixo, no que está fora da engrenagem, é encontrar subtexto no meio das manivelas de um sistema de exclusão: reciclar é criar embriões de outras maneiras de distribuir, produzir, consumir. O que é reciclado fere a engrenagem gotejante – mesmo que a goteira vire depois praça de alimentação dos shopping malls, por assimilação, justaposição, fagocitagem, apropriação do mercado de consumo. Sem esquecer que o mercado é suficientemente autofágico e cria seus próprios modos de auto-transformação. Se alimenta do desejo e da produção de desejo, há muito tempo. Nesse caso somos a inteligentzia operante abrindo campo de produção de mais capital e salvando a natureza. Ambos ao mesmo tempo. O tal do paradoxo.

As manivelas sexuais do patriarcado falocêntrico e heteronormativo também têm seus dejetos: os corpos descartados, os desejos abjetos. O sistema de distribuição, produção e consumo dos desejos também funciona deixando de lado os corpos que não prestam, os órgãos que não funcionam para a norma heterossexual, os defeitos, o que está fora do padrão. No sistema de erotização em que vivemos, o que não cabe fica largado às formigas da abjeção – orgânica ou inorgânica. Aprendemos como se faz sexo com a pornografia, aprendemos como desejar com as novelas e romances e aprendemos quem desejar como aprendemos a utilizar a lata de lixo: é preciso separar a comida do lixo, a mamãe da puta, o papai da traveca, a namorada da sapata, a perna da modelo do pescoço da vovó. O que fica debaixo do tapete é gordo nesse nosso estado erótico, o desperdício de corpos para o erotismo – os braços e ancas e ombros e tornozelos que ninguém quer ver. É o esquisito, o que fica de fora do alcance dos desejos. A esquizerda despudorada que somos quer fazer a reciclagem: tirar energia erótica dos corpos que ficam de fora da heterocompulsão para ventilar o que há putrefato e estagnado na sala de estar das sexualidades pornô-industrializadas. E para isso, que tiremos a L’origine du monde, de Courbet, das paredes reclusas de todos os lacanianos e penduremos Sleeping Beauty, de Freud – talvez o quadro mais caro de um pintor vivo hoje. (Para que não digam que esta coluna não apresenta números informamos: Lacan comprou o Courbet em 1955 por 1.5 milhões de francos; o de Freud está estimado em 17 milhões de libras.)

É preciso uma outra pornografia. E outra, e mais outra e mais outra. [1] Uma pornografia que impregne as outras. Contaminar os pares heterossexuais de desejos abjetos, criar uma democracia de desejos. Permitir que os desejos floresçam, ao invés de cerceá-los. A pornografia tradicional cria gargalos de desejos – como os mercados criam gargalos de distribuição. Os desejos ficam sufocados por outros, os apropriados. E os apropriados nem sempre são satisfeitos. É preciso pensarmos em desejos não proprietários, abertos e livres. Se não fizermos isso, somos coniventes com as sobras da produção massiva de desejo erótico: as gordas idosas senhoras de um lado e os aleijados do outro, os jovens franzinos de um lado e as jovenzinhas de um só olho de outro. Todos esperando o Reynaldo Gianechini. Ou seja, produção de escassez.Xavier Juarez

Em seu último livro, Testo Yonqui (Texto Junkie – junkie de testosterona), Beatriz Preciado diz que a hegemonia dos filmes pornográficos, com seu circuito global de excitação-capital-frustração-excitação-capital reduz a subjetividade dos atores ao “puro sexo”, trazendo à tona as performances de órgãos humanos extra-cinematográficos (pênis, ânus, vagina), gerando lucro a partir de uma contradição que é modelo para toda a indústria cultural de entretenimento. Significa empoderar o espectador bio-homem até sua ejaculação, mas ao mesmo tempo reduzi-lo a um receptor universal de estímulos ejaculantes, como um ânus gigante privado de toda decisão sexual. Ou seja, em última instância a função da indústria pornográfica subjetivante capitalística seria tragar sua própria porra, e nesse sentido os assíduos consumidores seriam parte desse circuito reduntante.

Para libertar a sexualidade do controle bio-político, ela diz que não basta reconhecer legalmente a indústria do sexo e da pornografia, nem tampouco retirar essa questão da esfera pública por regulação do estado ou de algum outro tipo de governança, muito menos ainda lutar para que a sexualidade volte a uma esfera privada (impossível), aqui fracassariam todas as empresas liberais, emancipacionistas e abolicionistas. A alternativa seria principalmente relacionada a invenção de novas formas públicas, compartilhadas, coletivas, e copyleft de sexualidades que superem o marco da indústria pornográfica espetacular e consumista.

Gabriela Leite, da Daspu, fala sempre da associação da dessubjetivação da sexualidade, pela industria pornográfica, com a violência e preconceito contra as prostitutas. Uma espécie de industria da violência que enxerga na prostituta somente órgãos-para-a-ejaculação. Por isso, chama as prostitutas não de profissionais do sexo, mas de profissionais das fantasias sexuais portadoras de direitos sexuais — inclusive de produzir lucro e sustentabilidade.

Gabriela Leite e Beatriz Preciado suspeitam que os teóricos do pós-fordismo são muito precisos e têm uma abordagem que condiz com as atuais escalas tendenciais do mundo do trabalho. Mas conseguem pensar somente até a cintura, retirando do foco da discussão o baixo ventre, mesmo que seja notório que vivamos em um estado entre a industria da pornografia e a cooperação universal masturbatória (internet) e não somente de produção e consumo de cérebros.

Não somos contra a pornografia. Somos contra os sistemas de opressão e controle.

Fazemos parte de um movimento globlal de crítica e abertura da história da representação da sexualidade. Talvez um momento único na história, que permite que as diferentes sexualidades se expressem rompendo com o código do platonismo espermatozóidico que encontra nessas diferentes práticas sexuais anomalias, perversões e passividade. O questionamento desses códigos narrativos, políticos e estéticos da pornografia industrial é de extrema importância para o confronto com a sociedade de bio-controle.

Queríamos fazer uma pornografia com o odor de Walt Whitman. Antler escreveu um poema que denuncia Whitman: ele era oceano-sexual, via láctea-sexual, brisa-sexual, esperando-por-você-sexual. Nada de pansexualismo: só uma penca de partes do mundo que excitam. Uma pornografia livre como uma grafia do corpo livre, como uma geografia da alma livre.

Inundar a pornografia de erotismo, sem colocá-las como antagônicas. Eliminar o erotismo da pornografia é negar ao humano suas potências de afeto e de desejo, é exercer a vontade de poder e de fascismo sobre o corpo do outro. É cair na representação da psicopatologia psiquiátrica, que vai nomear como perversão toda a forma de erotismo estranha ao heterossexualismo compulsório (leia-se aqui a produção de uma subjetividade voltada para um ideal de família e de sexualidade, cujos castigos, caso frustrado o ideal, são a culpa, a vergonha e a solidão), como por exemplo as milhares de mulheres que, por darem vazão a um desejo “desajustado”, morreram e ainda morrem na imcompreensão e miséria. Separar tão peremptoriamente pornografia de erotismo é sucumbir aos padrões (da lei, da guerra, do consumo e do lixo), suas necessidades de manutenção, território e poder. É negar o pacto de um encontro sado-maso por exemplo, que por mais que exerça esse poder entre escravo e senhor, assume o prazer como um jogo em que ambas partes jogam. É confundir uma prostituta com alguém-para-o-consumo, desprovida de qualquer desejo. É considerar que desejo de corpo é uma coisa suja e doentia, enquanto em algum outro lado como no intelecto ou no espírito reside um desejo mais puro.

Contaminar os desejos padrões com novos itinerários. É de desejo que falamos, e de direitos sexuais. O erotismo é gesto de corpo, é a repetição e desvencilhamento do gesto do corpo reproduzido pelo filme pornográfico. É preciso outras pornografias, sentir desejo pela ruga, pela fuga, pelo que não se inscreve como corpo-de-consumo. Pelo que escapa do formato do objeto, do abjeto, do dejeto. Permitir que as singularidades sexuais levantem, sacudam a poeira. Incentivar esses múltiplos desejos não como anomalias ou desejos por aberrações, mas por um direito fundamental ao erotismo.

Os corpos expostos de Abu Ghraib nas pinturas de Botero são mais poderosos que todas as denúncias da imprensa. É que os corpos mobilizam. E mobilizar é erotizar. Política é erótica – ou é apenas uma lista de obrigações.


Notas

[1] Em São Paulo, o cinefalcatrua promove um laboratório de cinema pornô em software livre.


Sobre o autor

Fabiane Borges e Hilan Besunsan assinam a coluna Políticas Esquizotrans no Caderno Brasil de Le Monde Diplomatique.

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